segunda-feira, 10 de março de 2008

Buda contemporaneo

Estas ruas estão infectadas por um vírus que nos consome a nós, fantasmas eternos, com a sua boca, um tunel infindável habitado por promessas negras onde todos os olhos estão bem fechados. Esta cidade tornou-se um cemitério onde os mortos-vivos caminham sem preconceitos e são vitimas da animosidade, sempre suspeita, onde as sombras são tudo que usamos. Nada mais aqui vive do que caras pálidas e ocas, a transparência de objectivos vazios... Agora caminhamos por ruas sem nome, desertas e sujas de cinza, sujas como todos nós nos tornaremos em breve, como sempre fomos. Costumamo-nos alimentar de feridas abertas no peito, elas são do tamanho certo para vestir a nossa mortalha, a qual usamos tão bem todos os dias... Todos nós nascemos e vivemos um dia para morrer...

...Quadro: Kazuya Akimoto - Buda de boca aberta...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A revolução da mente


Agarra o volante, tudo isto passa num instante e tudo é apenas uma momentânea falha de razão que dá lugar a desenvoltura quimica de sentimentos,
mesmo que obsoletos e ridiculos, são direccionais e propositados.
um dia, uma noite, ninguem sabera. o que aconteceu ou está para acontecer estará ou não
pré destinado e então fácil de prever, facil de controlar.
Como um insignificante movimento pode derrubar regimes e fortalezas, sinto me sem as pernas presas e os dedos injectados com adrenalina. a palavra é uma arma e disparo em todas as direcções, mesmo que não haja a culpa há a cumplicidade e corroboração dela, portanto ninguem é inocente. Mas a calma tem de ser mantida mas não contida, uma situação fodida quando olhamos a volta e sentimos a escuridão a consumir-nos nos actos do dia a dia. Compra isto compra aquilo, isto é bom é o resto é lixo. Palavras e opiniões que se tentam deuzificar em dogmas e fleumas fatais que bloqueiam o livre pensamento. Noutras palavras e metafóricamente falando, influencias sobre as mentes são reais, os perigos são reais, a consciencialização opcional, adquirindo formatos polivalentes e caóticos em que se encontram perspectivas embrulhadas em papel de anti-sobriedade por vezes confundido com rebuçados para o pensamento.
Como um matrix fundido com a idiotice, a idioteca implementa livros de como nos devemos revolucionar contra o abstracto, como movimentos de artes marciais da palavras que tentam o derrube mutuo de adversários que se esqueceram da missão politica e conjunta. Tudo é absurdo quando o absurdo que dizemos advem apenas da revolta das palavras quando devia contar a revolução da mente. O tempo é agora...

...quadro: Bardia Khan - A revolução da mente...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Hino dos porcos


A felicidade está em saldos em qualquer esquina.
Qualquer puta vulgar oferece um momento na compra de dois.
A felicidade está em saldos na nossa cabeça,
E qualquer movimento será pura ilusão.
São ruas sujas com pensamentos em pocilgas.
Cidades habitadas por porcos que cantam hinos,
Escondidos no escuro de esgotos fundos,
Só descobertos por breves intermédios.
O assassino espreita no escuro e espera o instante,
De se arrepender mas ele nunca chega.
Entretanto os porcos marcham em furia,
Onde nos olhos se reflecte a propria vida.
Um raio de luz que nos corta como uma faca,
Cada pensamento, cada iniciativa de criar
Em finas fatias, refinadas de malicia.
Apenas resta a marcha furiosa
A felicidade está fora de moda....

...Quadro - Ódio - M. Zinkevitch...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Ecos


As luzes lentamente esvanecem e eu estou no chão frio, despido, dormente e praticamente morto. O teatro fechou e todos já foram para as suas quentes casas, com os seus aquecedores e as suas vidas felizes onde os imagino em intermináveis ecos de serões cheios de risos estridentes, a casa invadida com cheiros de algo que está num forno, despreocupados e com os seus animais, os seus amo-tes... E eu, aqui e agora, entrego-me amorfo e sem vontade de quantificar qualquer tipo de movimento, e muito menos qualifica-lo de movimento em si. Tudo me custa e qualquer brisa é uma faca a cortar me os pensamentos de ficar imóvel. O teatro está só e o palco, esférico e outrora azul já não me recebe de braços abertos, com aquela ternura de uma criança, ou serei eu que o... não sei, nem tão pouco me importa, o jogo é sujo mas tenho de o jogar porque nada mais me resta, e está frio, muito frio. A única luz que me aquece é um pequeno foco que dá graças a minha nudez, a minha palidez e tão constante ausência, mas mesmo assim ele continua a morrer como alguem que fecha os olhos pela última vez para nunca mais acordar. O único alimento que me mantem respirável é a imensa vastidão de memórias que me fizeram viver, e ainda fazem e continuarão a fazer. O teatro fechou as portas... E agora. Leva-me para casa e veste-me algo, alimenta-me a alma e livra-me das doenças, autopsia-me para diagnosticar a minha ausência, as suas causas, as suas falhas e todas as suas justificações. Ficou um piano a soar sozinho na escuridão, debaixo dele uma poça de sangue, e cada nota que grita, não a gritará sem ti, cada gota que verte, verterá por ti, cada vida que cria, és tu. Mas o mundo abandonou-me e deixou me aqui...
...Quadro: Bonjour Satanas - Max Ernst...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

O fiel companheiro


Hoje é um bom dia para o silêncio, sem palavras e pensamentos de qualquer espécie. Apenas quilómetros e quilómetros de mudo e por entre rios e montanhas onde eu voarei só. Está um bom dia para estar sóbrio, despido, mas por outro lado está tudo de rastos onde apenas o silêncio é meu fiel companheiro e que por entre os lençois eu canto, sempre só, sempre em silêncio. Um livro por escrever é sempre um amigo de confiança quando nele escrevemos os nossos erros passados, ele ensina-nos e mostra-nos como sangrar tudo isso em silêncio com a companhia de o que há de mais importante para nós... Nós... Encerro a minha boca e serro os dentes antes de rebentar, sou cego surdo e mudo. Sou um marinheiro há muito perdido e o meu silêncio é o meu barco.
...O nascer do sol - Claude Monet...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A agua da vida


Imagino-me, uma gota a percorrer o infinito deserto de um rio, apenas um misto cientifico de moléculas, átomos e todas esses aspectos técnicos que nada veem nada ao acaso. Corro, nado e voarei, suado do esforço de estar entre uma multidão de mil e ser único e importante para pertencer ao todo. Sou o amor entre os amantes e a simplicidade de existência, a vida correndo para o mar, e o mar, quão belo e poderoso que é, ele também um amante secreto que está apaixonado pela lua, onde por vezes, se tocam e se beijam no horizonte para proporcionar um orgasmo visual a quem partilha o momento. Acorda, estou a passar nos teus dedos e estou-te a matar a sede, essa tua necessidade para viver e respirar, tal como a necessidade que um ser humano tem de amar. Eu, uma gota entre mil, escolheste-me. Assim sou o que quero ser e o que posso ser, sou a tua sede e o teu desejo, o teu rio que flui para desabrochar no teu oceano. Escolhesmo-nos...
...Quadro: Do lago, Georgia O’Keeffe...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A necessidade de voar


Escrevo porque preciso, não porque quero. Os dedos ganham asas como quem paira no ar e olha um lago gelado numa manhã ártica onde tudo é sentido e suave. Um livro é sem dúvida o nosso melhor amigo quando nele deixamos lá todos os nossos erros passados, despidos e crús. É um lembrete, uma sentinela sensorial, um relógio despertador que nos acorda todas as manhãs para nos lembrar que nunca é tempo para desistir mas que é sempre tempo de tentar emendar o que fizémos de mal. O tempo é, no fim de contas, o nosso melhor amigo, uma obra prima sem rosto mas ao mesmo tempo com milhares porque todos nós somos o tempo e o tempo é nosso. Escrevo por necessidade. Escrevo porque se não escrever morro por dentro e lá dentro, mesmo no fundo quero viver. Recuso-me a morrer. Nas veias corre-me o sangue quente que me aquece a alma e serve como tinta para escrever histórias de lutas, desabafos e afins. Dizem que a necessidade é um mau negociador, talvez seja verdade, talvez não, mas é o que é, uma necessidade efémera porque de sonhos vivemos todos... Todos nós temos necessidade de voar... Voem...
...Quadro: Gaivota da antártida, Toshi Yoshida...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O ser


Este é o despertar que tanto anseio, o instante em que sinto a vida preencher-me de extremo a extremo. Sou um para-sol, sou uma sintonia de frequências, completamente livre e despido de interferências. Sou o sol e a chuva que lava a vida e nos faz quimicamente romanticos. Sou o sal que sabe a doce e ao sabor do vento sou um pensamento, único e indecifrável por livros e aprenderes comuns. Sou uma faca que corta e dá vida, sou o papel que aínda não foi escrito, sou o silencio dentro de um grito. Sou tudo que no nada se imagina, sou uma alma libertina, sou deus, sou diabo, o mal, o bem, o ser...
...Quadro: A Vida, Pablo Picasso...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A guerra


Poderia escrever milhões de palavras, mais que as estrelas que enchem o céu que todos um dia desejámos, mas poupo a procura incontrolável porque tudo se resume a uma palavra, amor... se um dia chorei, foi por amor e tudo o que este me causou, se um dia me descontrolei e dei um murro na mesa, foi por amor e por amor foi que disse e sinto que te amo. Agora não sei o que resta nesta guerra sem cessar fogo onde cada palavra mata e cada sentimento fere. Imagino-me no meio de um campo de batalha em que não sei se estou a lutar ou estou a morrer, e sinceramente, às vezes tampoco importa, o que importa é o amor, porque por ele me arrasto e luto para sobreviver. Um dia disparei uma arma directa ao teu coração e feri-te, de morte, mas como um lobo, lambi-te a ferida e luto para ela sarar e se tornar uma cicatriz duma batalha vencida. Celebraremos nós?
...Quadro: A face da guerra, Salvador Dali....

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Os amantes


Não quero ser apenas um amigo, vulgarizado ao qual emites questões sensoriais e privadas em que se cruzam mistos de raiva e amor. Não consegues evitar, não consigo parar de pensar que poderia ser diferente, poderia naquele momento ter-me desviado da tentação passada de efectuar transmissão. Desculpa por tudo... Não quero repetir, és única e como única que és quero-te e desejo-te. A ansiedade de não saber o amanhã castiga-me o ter-me apercebido do ontem e o ontem enterrou-nos e o amanhã tenta desenterrar nossos corpos pensativos, duvidosos e sentimentais cada um pelas suas razões. Sinto-nos amantes, mais do que eu ou tu podemos alguma vez conceber. Algo mais forte que a própria vontade de sentir.
...Quadro: Os amantes, René Magritte....